BRASIL:
POTÊNCIA EM ASCENSÃO OU SUBDESENVOLVIMENTO MAQUIADO?
A imprensa tem divulgado
declarações que variam desde que não haveria mais fome no país até as que
afirmam que existem mais de 50 milhões de famintos no Brasil. O novo governo
adota o número de 40 milhões de pessoas que não teriam condições de se alimentar
adequadamente todos os dias.
Que
informação mais se aproxima da realidade? Como definir políticas públicas
adequadas a partir de diagnósticos tão diferentes? Infelizmente, não existe uma
resposta simples para estas perguntas. Não existe uma verdade única, mas sim
diferentes visões de uma mesma realidade.
Todos olham
para o mesmo Brasil, mas com diferentes perspectivas - o que gera diferentes visões
sobre uma realidade que é indistinta. Por exemplo, no começo da gestão de um
governo, provavelmente o saldo que ele fará da situação da fome no Brasil será
negativo, visto que foi fruto do esforço da oposição. Já no fim de sua gestão,
um governo olhará para o país com olhos de superação e poderá cometer o erro de
analisar friamente números ou esquecer fatores como aumento de população,
aumento de custo de vida, aumento da pressão consumidora, aumento da
insalubridade no trabalho, dentre outros.
A reflexão sobre a fome no
Brasil, portanto, perpassa complexas questões sociais e pressupõe uma visão
crítica e conjunta dos vários setores sociais. A questão da alimentação, da
fome e da má nutrição não pode ser olhada exclusivamente em sua dimensão
econômica (acesso à renda), alimentar (disponibilidade de alimentos) ou
biológica (estado nutricional). O ato de se alimentar e alimentar familiares e
amigos é uma das atividades humanas que mais reflete a enorme riqueza do
processo histórico de construção das relações sociais que se constituem no que
podemos chamar de "humanidade", com toda a sua diversidade, e que
está intrinsecamente ligado à identidade cultural de cada povo ou grupo social.
(Valente, 2002).
A
alimentação humana se dá na interface dinâmica entre o alimento (natureza) e o
corpo (natureza humana), mas somente se realiza integralmente quando os
alimentos são transformados em gente, em cidadãos e cidadãs saudáveis.
Comparativamente,
pode-se citar o exemplo da escravidão no Brasil: os escravos tinham alimentação
e não morriam de fome, mas caracterizá-los como apropriadamente nutridos é,
evidentemente, um equívoco. Uma grande parte da população brasileira ainda não
se alimenta adequadamente por não ter dinheiro suficiente para escolher o que
comer. Dessa forma, perspectivas otimistas podem caracterizá-los como “acima da
linha da pobreza” (expressão largamente adotada pelo governo atual), e
perspectivas menos idealistas podem classificá-los como nutricionalmente
deficientes.
Visto isso, é
importante perceber que a fome no Brasil diminuiu inegavelmente nos últimos
anos. No entanto, há ainda muito a melhorar e esconder isso atrás de números e
estatísticas maquiadas somente engana àqueles sem senso crítico para enxergar a
realidade. A melhoria do quadro da fome está diretamente associada à uma
política de maior distribuição de renda e depende de uma visão de melhoria
tanto do trabalhador da mansão, como do dono da propriedade.
REFERÊNCIA: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902003000100008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt















