segunda-feira, 21 de julho de 2014

POR QUE É ASSIM NO BRASIL?


            Nessa postagem, a temática da fome no Brasil será discutida comparando-a com a fome ocorrente nos países desenvolvidos. Embora o problema social seja o mesmo, ele se apresenta sob diferentes vertentes de acordo com as características de cada país e, principalmente, a amplitude da distribuição de renda naquele país.
            Alguns até duvidam que os países desenvolvidos, tão pomposos quando falam das admiráveis condições de vida de suas populações, sequer enfrentam (ou já enfrentaram) a problemática da fome. É fato que a maioria deles já teve momentos de precariedade em sua história, e se atualmente se apresentam com alto grau de desenvolvimento, isso provavelmente se deve a forma que enfrentaram os problemas sociais ora latentes.
            De fato, olhando para a história percebe-se que na metade do séc. XIX, as populações europeias foram vítimas de inanição frequente. A falta de transporte fazia com que cada pequena localidade dependesse de sua própria colheita e uma falha desta, resultaria em inanição, mesmo que, em localidades relativamente perto, a colheita fosse normal. Durante o séc. XVIII a França, o mais rico país do continente, sofreu repetidos períodos de inanição. Pelo menos 9 severas falhas da colheita foram registradas nos países escandinavos entre 1740 e 1800, e, cada uma delas, resultando em um acentuado aumento do coeficiente de mortalidade. Na Noruega, o coeficiente de mortalidade, em 1741, foi três vezes maior que em 1736-1740, tendo morrido, no referido ano, 1/15 da população, tendo sido a principal causa, a falha de colheitas, que assolou todo o norte dos países europeus. Na Suécia, durante a severa inanição de 1773, o coeficiente de mortalidade elevou-se para 52,5/mil habitantes.
            Todos os citados países apresentam atualmente ótimas condições econômicas, o que levanta imediatamente a pergunta: E o Brasil?
            De acordo com a postagem anterior, O Brasil conseguiu reduzir o número de pessoas subnutridas no País em 2 milhões de pessoas no último triênio(vide postagem “ Histórico da fome no Brasil”). Os números, embora animadores, não podem enganar: a fome no país ainda é um problema crônico e presente.
            Isso leva à pergunta: por que isso ocorre até os dias atuais no Brasil? Bom, a fome no Brasil resulta de um processo histórico de distribuição desigual de renda – ou melhor, não distribuição. E a fome persiste até hoje porque a desigualdade entre as rendas ainda permanece.
            À luz desse quadro, é visível que a população deve cobrar do governo brasileiro mais programas de distribuição de renda e menor rendição à dinâmica capitalista de concentração de riqueza. Não se deve cair na ilusão de que o subdesenvolvimento é apenas um passo para o desenvolvimento, pois apenas trata-se de informação para evitar levantes e cobrança por parte da população. Se o desenvolvimento encontra-se degraus acima do subdesenvolvimento, que pulemos degraus, ao invés de ultrapassá-los um a um.


REFERÊNCIA: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101971000100015&lng=pt&nrm=iso&..

domingo, 13 de julho de 2014

FOME NO PRODUTOR MUNDIAL DE ALIMENTOS


            A principal incumbência dos animais é obter o alimento diariamente para poder perpetuar sua espécie. Seja caçando ou abrindo a geladeira. A fome, e a necessidade de controlá-la, é universal entre os integrantes do Reino Animmalia. Os seres humanos, como animais, portanto não são diferentes. A diferença é que como o homem estabeleceu-se em sociedades altamente complexas, o seu método de obtenção/distribuição/uso do alimento se torna dependente de fatores socioeconômicos, diferentemente dos outros animais.
            A atual produção mundial de alimentos é superior à capacidade de consumo dos seres humanos. Assim, podemos constatar que a fome não resulta de uma baixa produtividade ou de pouca produção de alimentos no mundo. A questão, entretanto, é a seguinte: como os 860 milhões de seres humanos que passam fome podem ter acesso aos alimentos? No cerne da fome no Brasil, estabeleçamos três vertentes de possíveis respostas:
1)    Desigualdade econômica: Provavelmente o principal obstáculo no caminho de combate à fome. No Brasil, alimentar-se corretamente continua caro. Quando se fala “adequadamente”, tenta-se aludir a uma alimentação completa de nutrientes e não apenas a saciedade. A alimentação mais adequada, com frutas, carboidratos, sais minerais e vitaminas é frequentemente substituída pela alternativa de alimentos mais baratos industrializados e pré-prontos, principalmente pelos mais pobres. Isso cria uma situação de “fome nutricional”, diferente do sentido fisiológico da fome.
2)    Brasil produtor mundial de gêneros lucrativos: O Brasil produz excessivamente soja, café, algodão, cacau, laranja, enfim, as monoculturas destinadas à exportação, produtos que, em sua maioria, não são consumidos pelos brasileiros. Por outro lado, o país produz pouco arroz, feijão e mandioca, produtos que constituem a base alimentar dos brasileiros e passaram a ser importados com dinheiro das assim chamadas divisas do superávit da balança comercial, resultante das exportações agrícolas. Essa é uma das formas de desigualdade que contribui para a concentração de renda nos países ricos e pobres e para o aumento da fome. 
3)    Pouco incentivos a programas de agricultura familiar: Consequência do fator de número 2, uma vez que a monocultura exportadora traz mais lucros e benefícios a curto prazo. Historicamente, a agricultura de subsistência sempre viveu em detrimento da agricultura comercial. A agricultura familiar não recebe apoio público na forma como deveria receber, considerando sua importância para a soberania alimentar das nações. O debate sobre os subsídios agrícolas também é fundamental no que se refere à alimentação. Na Europa, por exemplo, é subsidiada a agricultura que não precisa do subsídio (os grandes produtores rurais e corporações agrícolas), em função da pressão política das suas organizações. O governo apoia, prioritariamente, quem expande sua capacidade produtiva, o que gera um problema de superprodução. Em seguida, para compensar os baixos preços decorrentes do excesso produzido, os governos subsidiam a exportação desses produtos, que entram no mercado internacional, destruindo a produção em outros países e gerando uma nova dependência.

Assim, percebe-se que a fome no Brasil é resultado de um processo histórico. Para superá-lo, provavelmente a população precisará se mobilizar no sentido de desatrelar os governantes das amarras comerciais as quais eles impuseram o país. O ser humano, no campo da selva capitalista, precisa superar uma presa maior e mais infiel que os outros animais: a desigualdade econômica.

REFERÊNCIA: http://www.nossofuturoroubado.com.br/arquivos/maio_09/trangenicos_producao_de_alimentos.html

domingo, 6 de julho de 2014

HISTÓRICO DA FOME NO BRASIL

            “A miséria no Brasil não é algo ocasional, mas resultado de um processo histórico que não resolveu questões básicas. Com a explosão dos índices de desemprego nos anos 90, ela se agravou. Hoje, há um amplo consenso de que o mais terrível dos efeitos da miséria, a fome, não é causada pela falta de produção de alimentos, mas pela falta de renda das famílias para adquirir os alimentos na quantidade necessária e com a qualidade adequada”. Esse é um dos tópicos da campanha eleitoral do ex-presidente Lula e que demonstra pertinência em qualquer época, já que a fome ainda é uma constante no país.
            
O problema da fome no Brasil tem suas raízes no processo histórico-político da formação da nossa economia, tendo suas origens no período colonial (séculos XVI ao XIX), relacionado com a prioridade do mercado exportador de matéria-prima (açúcar, tabaco, ouro, diamante, algodão, café) sobre o mercado interno (mandioca, feijão e milho) e da concentração da riqueza da colônia nas mãos de poucos proprietários. Inicialmente a população que tinha como base à cultura da cana de açúcar e o trabalho escravo se fixou ao longo do litoral. No século XVII, com o desenvolvimento da pecuária e da cultura de subsistência, foi acontecendo a interiorização do povoamento. Até então, a população conseguia manter um bom nível de autossuficiência alimentar. A partir do êxodo no sentido da Capitania das Gerais, com o início do Ciclo da Mineração aconteceu à importação de gêneros alimentícios de outros locais, em decorrência de dificuldades no transporte e conservação dos alimentos. Esse novo cenário de deficiência de abastecimento dos gêneros teve como consequência à elevação dos preços, a fome e distúrbios da ordem social - tanto os pobres como os senhores de engenho se sentiram prejudicados, uma vez que a alimentação da mão de obra escrava se problematizava. Entre o final do século XVII e início do século XVIII, tivemos 25 anos de fome no Brasil e outros dois terços de carestia e penúria. O cerne da questão se encontrava nas relações entre o grande produtor mercantil e a produção para o abastecimento interno, pois o comércio colonial oferecia rendimentos muito mais elevados, delegando um perfil de pobreza aos pequenos agricultores. No início do século XVIII, o governo colonial tenta impedir a mudança de cultivo de gêneros pelos agricultores, gerando crescente tensão entre os dois segmentos com os mecanismos de fluxo de renda no interior da colônia como principal força motriz da crise. A primeira ação de governo para evitar a fome foi tomada ainda em 1700: grandes áreas de cultivo de cana de açúcar e tabaco foram substituídas para dar lugar as plantações de alimentos. Em fins do século XIX e início do século XX, a abolição da escravatura e a expansão demográfica, em simultâneo com a difusão do modo de produção capitalista no mercado interno desencadearam uma série de transformações no sistema produtivo e na estrutura de classes no país. As manifestações se fizeram sentir nos movimentos contra a carestia e a perda do poder aquisitivo das classes populares. Durante a guerra, o mercado exportador de alimentos cresceu, mas em torno de 1920, começou a ter a concorrência acirrada do mercado internacional. 
Hoje, o problema da fome no país está dando sinais de melhora, entretanto ainda esbarra em questões sociais, das quais destaca-se a desigualdade econômica. O Brasil conseguiu reduzir o número de pessoas subnutridas no País em 2 milhões de pessoas no último triênio, segundo o informe ‘O Estado da Segurança Alimentar no Mundo’ (SOFI 2012), publicado conjuntamente pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA). De acordo com a FAO, o número de pessoas subnutridas no Brasil reduziu de 23 milhões (1990/92) para 13 milhões (2010/12). Somente nos últimos três anos, houve uma redução de 15 milhões (2007/09) para 13 milhões (2010/12), representando uma queda de 13%.

Esse sucesso é atribuído geralmente aos programas assistencialistas, como o Bolsa Família e o aumento do poder aquisitivo do brasileiro. No entanto, nem tudo são flores: o país ainda apresenta altíssimos índices de disparidade econômica, indicando que a fome poderia ser bem menor do que é. Não devemos nos conformar com tão pouco, principalmente tendo em vista o histórico do país de conquistas sociais condicionadas pela mobilização da população.



REFERÊNCIAS:  http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=467
                              http://www.onu.org.br/fao-brasil-reduziu-a-fome-em-dois-milhoes-de-pessoas-nos-ultimos-3-anos/
                             http://www.ufrn.br/davinci/abril/contracapa.htm